terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Viver sem Viver (PARTE I)

Matilde viveu e sofreu. Matilde continua aqui, neste mundo, mas não lhe pertence. Cresceu com uma mãe que não era A sua. (Terá sido engano lá de cima?).
Tentou libertar-se da prisão onde nasceu. (Ousadia de Matilde...). A jovem, com 18 anos, casa-se com o professor, aquele homem ganancioso, sem amor para lhe dar, mas no fundo...boa pessoa.

- "Não mandas mais em mim mãe! Acabou o meu sofrimento!"

A mãe de Matilde chora, chora e pensa no quanto ama a sua filha, mesmo que ela diga disparates à frente das suas amigas. Matilde não pensa assim.
Diz ser de outro mundo, um mundo superior, ao qual as "criaturas" que a rodeiam não conseguem alcançar. (o casamento irá salvá-la)
Matilde casa. Muda de caa. Tem um filho. Morre-lhe a criança. Matilde está só. Discute com a mãe, porque é a única que a ouve. Matilde espera o marido, que não dorme em casa...Matilde lê, vê televisão, chora e desepera. Torna-se num ser forte, que tudo quer e tem. (Refugia-se no álcool)

Os anos passam...
Três seres nascem numa casa sem amor. Crianças inocentes, boas e diferentes surgem e crescem no meio de agressões, ausências, mentiras. (choram sozinhas)
- "Porquê mãe?"
A avó, aquela que sempre pensou ser a sua prendeu, é a sua base. Não há amigos, não há família. Há um pai, distante, mas que ama os filhos. Há uma mãe, que tudo dá aos filhos, que os leva pra todo o lado, mas...("mãe porque partes tudo?")

Os anos passam...
Todos crescem. Modulam o pensamento. Personalidades formam-se.
- "Não aguento mais...quero morrer!! Ver a minha mãe morrer aos poucos, ver o meu pai ausentar-se e não me olhar nos olhos...nem consigo falar disto com os meus irmãos...tenho vergonha..."
Tentativas de suicídios, agressões, ausências inexplicáveis, amantes...o pensamento dos filhos...
João, o marido, sofre é verdade...chora em silêncio, chora sem lágrimas, mas a verdade é que nunca amou Matilde...
- "Eu amo os meus filhos, mas já não os consigo encarar...Estarei a errar muito com este casamento?! Eu não tenho nenhuma amante...pelo menos, desde que nasceram as crianças...mas agora tem ela!!! Naõ tem esse direito!!!"

Os anos passam...
A separação é inevitável. Matilde volta a sorrir. Volta a pensar em viver, em começar a viver. João é infeliz, mas já encara os filhos...vive na ausência dos putos, vive na expectativa das suas visitas...
Todos vivem!
- "Agora posso-vos contar o que foi a minha vida estes anos..eu sei que são minhas amigas, mas tinha vergonha dos meus pais...Mas agora, tudo vai mudar!"

Os anos passam...
- "Sou adolescente...posso pensar agora em viver a adolescência...posso pensar em namorar, em sair...em viver, que não a vida dos meus pais, a vida da mentira!!!"

Os anos passam....
- "O pesadelo voltou??"

6 comentários:

Miosotis disse...

Sensibilizada pelo teu olhar silencioso em 'fragmentos'!

.... fiquei um pouco sem jeito para comentar o teu texto! Não sei se fantasia, se realidade! E quando qualquer forma de intimismo parece estar presente, 'evito' comentar! Não tenho esse direito.

O Profeta disse...

Um texto imenso de profundo sentir...


Inventei uma cidade colorida
Pintei um lago ao pé da tua porta
Coroei-te com diadema de sal
Lancei à sorte esta folha já morta


Boa semana



Doce beijo

O Profeta disse...

Este vento que sopra nos brandais
Leva de arrasto a minha alma
A proa estende-se adiante na vaga
Olhar de garça o meu coração acalma

Ai quem me dera voar no canal
Ai quem me dera ser a tua espera
Ai quem me dera que o amor
Ai! morasse naquela terra



Bom fim de semana


Doce beijo

**Suspiro** disse...

E pensar que há tantas matildes...

Å®t Øf £övë disse...

(Un)Hapiness,
Um texto muito forte, e que nos deixa a pensar. É daquelas histórias que podem servir como exemplo para muita gente. Se todos pensarmos no que aqui está escrito, e nos é transmitido, talvez se possam evitar muitas situações iguais ou parecidas com esta que aqui relatas. Infelizmente há muitos mais casos assim do que qualquer um de nós julga.
Bjs.

Å®t Øf £övë disse...

(Un)Hapiness,
Bom domingo.